O preço silencioso de uma educação sem exigência
- Claudio Jacoski

- 23 de jul.
- 3 min de leitura
Quando o Estado transforma a aprovação em política pública, não está protegendo o aluno — está hipotecando o futuro do país
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Claudio Jacoski | Reitor da Unochapecó (licenciado), doutor em Engenharia de Produção, pesquisador em tecnologia e gestão da inovação, Presidente do CRUB – Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (licenciado).
Há um conforto perigoso nas notícias sobre educação. Nos últimos anos, o Brasil passou a registrar taxas de aprovação no Ensino Médio que se aproximam de 95%. Os números omitem o que mais importa: o que o jovem de fato aprendeu antes de ser aprovado.
A educação brasileira está fora da pauta do desenvolvimento do país e também evidencia uma contradição. De um lado, um sistema que empurra o aluno de série em série e pune a reprovação como se fosse uma afronta. De outro, a realidade das salas de aula universitárias, onde professores de todas as áreas se deparam com estudantes que não sabem operar com frações, conjugam verbos com erros elementares e redigem parágrafos que afrontam a Língua Portuguesa.
O Censo Escolar recentemente divulgado aponta que a taxa de abandono no Ensino Médio caiu de forma expressiva entre 2024 e 2025, e que a aprovação atingiu 94,8%. À primeira vista, pode parecer um avanço; porém, qualquer educador com experiência em sala de aula sabe que há algo errado quando um sistema escolar se aproxima da aprovação universal. Em qualquer disciplina e contexto em que se exija um mínimo de qualidade e rigor acadêmico, uma taxa de reprovação próxima de zero é estatisticamente impossível.
O Brasil investe aproximadamente US$ 3,8 mil por aluno ao ano na educação básica — valor inferior ao da Argentina e do Chile, e correspondente a apenas um terço do que os países da OCDE alocam em seus sistemas educacionais. Seria tentador atribuir o problema exclusivamente à insuficiência de recursos. Mas a análise precisa ir além: países com investimento semelhante ao nosso obtêm resultados muito superiores.
A isso se soma uma crise silenciosa na formação docente: mais de 80% das licenciaturas no Brasil são ofertadas na modalidade a distância, em cursos que raramente simulam a complexidade do ambiente escolar real. Mais grave ainda: avaliações do próprio Ministério da Educação indicam que mais de um terço dos professores brasileiros não demonstra domínio suficiente dos conteúdos que lecionam.
Esse flagelo educacional ganha contornos de urgência quando lembramos que um profissional formado hoje passará, em média, as próximas quatro décadas oferecendo suas decisões e seu trabalho à sociedade. Estamos chancelando diplomas de futuros engenheiros, advogados, médicos e gestores, sem que possuam o alicerce mínimo exigido para o exercício de suas funções. O Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), aplicado pela primeira vez no ano passado, chamou a atenção de todos, pois apontou 99 cursos do país com sérios problemas de formação médica, mesmo estando autorizados e com notas satisfatórias no sistema de avaliação brasileiro.
A universidade, que deveria receber jovens prontos para o pensamento complexo, tem sido obrigada a recuar. Cursos de nivelamento proliferam, como pré-cálculo, pré-línguagem, nivelamento matemático, etc. É preciso dizer com clareza: a reprovação, quando necessária, é um ato pedagógico. Não se pode fazer escolhas políticas que gerem consequências reais e duradouras em detrimento da formação de qualidade.
A meritocracia escolar é a garantia de que o diploma tem valor real. É o compromisso de que o jovem que chega ao Ensino Superior domina os instrumentos básicos do conhecimento. Além disso, o diploma de ensino superior não é apenas um papel; é a condição para que o processo formativo tenha sido realizado com eficácia, autorizando os Conselhos Profissionais a incluir aquele egresso como profissional habilitado ao exercício de suas funções.
O país precisa de uma agenda educacional que combine permanência e exigência. Que invista na formação presencial, contínua e rigorosa dos professores; que restaure a autoridade pedagógica do docente; que avalie os alunos de forma séria, com critérios claros e consequências reais. Apenas bater metas de aprovação é um estelionato social que condena a juventude ao subdesenvolvimento e hipoteca o futuro produtivo do país nas próximas décadas.
* Publicado em 22 de julho de 2026: https://sl1nk.com/s6xa5gr

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